No final da tarde, passageiros enfrentam longas esperas, escassez de táxis para percursos completos e recorrem cada vez mais às motorizadas para conseguir chegar ao destino.

No final da tarde, um percurso relativamente curto no centro de Luanda transforma-se num verdadeiro teste de paciência. Entre engarrafamentos intensos e a prática das chamadas “vias curtas” por parte de taxistas, deslocar-se da Mutamba até à Multiperfil tornou-se um desafio diário para estudantes, trabalhadores e outros cidadãos que dependem do táxi para regressar a casa ou cumprir compromissos na Baixa.

“Muitos de nós utilizamos essa rota como referência para o trabalho, entrega de documentos, encontros profissionais ou simples deslocações para a escola ou para casa. Mas a partir das 16 horas, sair da Mutamba em direcção à Multiperfil torna-se um dos maiores desafios de mobilidade na cidade”, relata Maria Barbosa, funcionária pública.

No local, a reportagem encontrou passageiros aglomerados, disputando espaço nos poucos táxis disponíveis para percursos considerados mais longos. Assim que chegam, muitos motoristas anunciam apenas rotas curtas, chamando destinos como “Zamba 2”, “Camuxiba Bar”, “Morro da Luz” ou “Antigo Control”. A tão esperada chamada para a Multiperfil raramente se ouve naquele horário.

A estudante universitária Elisa Manuel descreve a situação como cansativa.

“Quando saio das aulas e preciso regressar a casa, já sei que vou demorar. Muitos táxis não querem seguir até lá. Temos de esperar muito ou aceitar descer antes do destino e procurar outro.”

Para o funcionário público Pedro Ngonga, o constrangimento começa assim que termina o expediente.

“O trânsito aumenta muito e os taxistas evitam certos percursos. Quem precisa mesmo de chegar até à Multiperfil acaba por pagar mais ou fazer o trajecto dividido.”

Do lado dos motoristas, a explicação aponta para as condições da via no final da tarde. Segundo eles, a prática das “vias curtas” surge como forma de evitar perdas de tempo e combustível.

“Depois das 16 horas, a Baixa praticamente pára. Se formos até à Multiperfil e ficarmos presos no engarrafamento, perdemos tempo e combustível”, explicou um dos condutores ouvido pela reportagem.

Enquanto aguardava transporte, o jovem Tuca chamou a atenção para o impacto social do problema.

“Nem todos têm dinheiro para pagar duas corridas. Há estudantes, mães com crianças e pessoas idosas que sofrem mais com essa situação.”

Diante da escassez de táxis disponíveis para o trajecto completo, muitos cidadãos recorrem às motorizadas como alternativa mais rápida. Os preços variam entre 500 e 1.500 kwanzas, dependendo do trânsito e da urgência do passageiro.

O estudante Armando Francisco admite que já adoptou essa solução várias vezes.

“Quando vejo que não há táxi directo, prefiro pagar motorizada. Chego mais rápido, mas é caro e nem sempre é seguro.”

Também a enfermeira Paula reconhece que a motorizada tem sido uma saída frequente.

“É uma alternativa, mas não é confortável para todos. Mesmo assim, quando estamos atrasados, muitas vezes não temos outra opção.”

A situação não é recente. Moradores e utentes da Baixa de Luanda relatam que, há vários anos, o período entre o final da tarde e o início da noite é marcado por fortes constrangimentos no trânsito. Com o crescimento do número de viaturas em circulação e a concentração de serviços públicos e privados no centro da cidade, o fluxo rodoviário tornou-se cada vez mais intenso.

A Mutamba, um dos principais pontos de ligação entre diferentes municípios e bairros da capital, funciona como um importante ponto de distribuição de passageiros, tornando-se particularmente congestionada nas horas de maior movimento.

Mais do que um simples problema de trânsito, a situação acaba por afectar directamente o quotidiano de milhares de pessoas. O tempo perdido nos engarrafamentos, os gastos adicionais com transportes alternativos e o desgaste físico e emocional passam a fazer parte da rotina de quem depende diariamente daquele percurso para estudar, trabalhar ou aceder a serviços essenciais.