Apesar de estar localizado às margens do rio Dande, o bairro Kirindo, na província do Bengo, enfrenta há vários anos dificuldades no acesso à água potável. A avaria do sistema comunitário de abastecimento obriga muitos moradores a consumir água directamente do rio, situação que preocupa a população pelos riscos que representa para a saúde pública.

Segundo o coordenador da Comissão de Moradores, Francisco João Dias, foi a própria comunidade que organizou um sistema de abastecimento de água, financiado com contribuições dos residentes.

“Os moradores contribuíram para a compra de mangueiras, torneiras e outros materiais. Infelizmente, o sistema deixou de funcionar e, actualmente, a população consome água directamente do rio, colocando em risco a saúde pública.”

Entre os moradores, o sentimento é de abandono. Arminda Hossi afirma que as sucessivas reclamações dirigidas às autoridades ainda não produziram resultados.

“Temos reclamado bastante, mas até agora não somos ouvidos. Penso que tem faltado boa vontade do Governo. É uma pena continuarmos a viver nestas condições.”

Para compreender a realidade desta comunidade, é necessário recuar à história do antigo bairro Kangondo, hoje conhecido como Kirindo.

O nome Kangondo tem origem nas tradições locais e reflecte a influência da língua quimbundu, estando associado a um local onde a água brota da terra, como uma nascente ou pequeno curso de água. Historicamente, muitas comunidades fixavam-se junto dessas fontes para garantir o abastecimento de água e o desenvolvimento da agricultura, dando origem ao nome da localidade.

Segundo o morador mais antigo da comunidade, Luiz Gabriel Neto, Kirindo designava originalmente a zona situada do outro lado da ponte. Foi para esse local que muitos habitantes de Kangondo se deslocaram para fugir às sucessivas cheias provocadas pelo transbordo do rio Dande, passando, com o tempo, a concentrar-se na área actualmente conhecida como Kirindo.

Hoje, a realidade contrasta com a história. Embora esteja junto ao rio Dande, a comunidade continua sem acesso regular à água potável, vivendo um paradoxo que preocupa os moradores.

Além da escassez de água, a população enfrenta problemas de insegurança. Francisco João Dias alerta para o aumento da criminalidade e para a falta de uma esquadra policial na comunidade.

“Defendemos um maior acompanhamento por parte das autoridades para reforçar a segurança pública e melhorar as condições de trabalho das comissões de moradores. A zona não dispõe de uma esquadra policial, obrigando os moradores a procurar apoio noutras localidades. Trabalhamos por amor à comunidade, mas precisamos de apoio. Se nada mudar, muitos de nós poderemos abandonar estas funções por falta de protecção e de condições para trabalhar.”

Rio Dande, junto ao bairro Kirindo. Apesar da proximidade desta importante fonte de água, muitos moradores continuam sem acesso regular à água potável.

No sector da educação, Kirindo dispõe apenas de duas escolas que asseguram o ensino primário e o primeiro ciclo. Na saúde, os moradores contam com um único centro de saúde, que, segundo a população, enfrenta limitações devido à escassez de profissionais.

Em 2022, a inauguração da ponte metálica sobre o rio Dande representou um marco importante para a comunidade. Antes da sua construção, o acesso ao bairro era feito através de canoas e embarcações artesanais. A infra-estrutura facilitou a circulação de pessoas e o escoamento da produção agrícola, mas não resolveu os principais problemas apontados pelos moradores.

A falta de água potável, a insegurança e as limitações nos serviços de saúde e educação continuam a marcar o quotidiano da população, que espera uma intervenção das autoridades para garantir melhores condições de vida.

Por: Sílvia Mário