A requalificação da Vila da Muxima garantiu novas moradias a centenas de famílias transferidas do antigo bairro Katondo para o reassentamento do Coxi. No entanto, para os estudantes realojados, o acesso à educação transformou-se num dos maiores desafios pós-mudança.
As escolas onde as crianças estudavam permanecem na zona de origem, da qual as famílias foram removidas. No novo reassentamento, embora estejam em construção novas infraestruturas escolares, as obras ainda não foram concluídas. Enquanto isso, os estudantes são obrigados a percorrer diariamente vários quilómetros para continuar os seus estudos.
Na ausência de transporte público regular na zona do Coxi, a maioria dos alunos depende de mototáxis (duas e três rodas). Em muitos casos, três ou quatro estudantes seguem numa única moto, sem capacetes e sem quaisquer condições de segurança.
“Os nossos filhos estudam lá onde nos tiraram. Aqui ainda estão a construir escolas, mas ainda não funcionam”, afirmou António Manuel, encarregado de educação. “Todos os dias eles vão de mota. A gente manda, mas fica sempre com medo.”
Quando não há moto-táxi disponível, a alternativa é pedir boleia em viaturas de carga de caixa aberta, normalmente usadas para transportar mercadorias. As crianças seguem na parte traseira, expostas ao pó e ao risco de quedas.
Para Rosa Quissola, mãe de três alunos do ensino primário, a situação é preocupante. “Eles vão em carros abertos, às vezes em pé. A estrada tem muitos buracos. É muito perigoso para crianças.” O mau estado das vias agrava o problema, sobretudo em dias de chuva, quando o percurso se torna escorregadio e difícil de atravessar.
João Mateus, pai de dois adolescentes, relata que o cansaço já interfere no rendimento escolar. “Eles saem muito cedo e chegam cansados. Há dias em que não conseguem transporte e faltam à escola. Isso prejudica o futuro deles.”
O custo do transporte também pesa no orçamento familiar. Cada viagem varia entre 300 e 500 kwanzas, um valor elevado para agregados com vários filhos em idade escolar.
“Tenho quatro filhos a estudar. Nem sempre consigo pagar mota para todos”, explicou Lúcia Domingos, encarregada de educação. “Às vezes preciso decidir quem vai naquele dia. É uma situação muito difícil.”
Já Carlos Alberto, outro morador do reassentamento, defende uma solução urgente. “Enquanto as novas escolas não ficam prontas, devia haver autocarros para transportar os estudantes. Não podemos continuar a expor as crianças a tanto risco.”
Apesar de reconhecerem a importância da requalificação urbana e das novas infraestruturas em construção, os moradores pedem maior atenção à fase de transição. Para eles, a educação não pode ficar dependente de motas sobrelotadas ou boleias improvisadas.
Enquanto as escolas do Coxi não entram em funcionamento, centenas de estudantes continuam a enfrentar diariamente estradas degradadas, transporte precário e riscos constantes — tudo para garantir o direito de aprender.
Por Sílvio José
