Com a aproximação da época chuvosa, o pânico volta a instalar-se no quotidiano dos moradores do bairro do Rangel, sobretudo na Rua da Brigada, uma das zonas historicamente mais castigadas por alagamentos e enchentes. Para quem ali vive, a chuva deixou há muito de ser apenas um fenómeno natural e passou a ser encarada como uma ameaça real, sinónimo de perdas materiais, insegurança permanente e riscos graves à saúde pública.

Na Rua da Brigada, a cena repete-se sempre que o céu escurece. Bastam poucos minutos de chuva intensa para a água transbordar, invadir residências e transformar casas em autênticas armadilhas. Mobílias são arrastadas, electrodomésticos ficam inutilizados e famílias inteiras veem anos de esforço desaparecerem em poucas horas.

Lixo, mosquitos e doenças
Patrick, esteticista informal e morador da zona há mais de 12 anos, diz que o problema não se resume à água. “Quando a chuva vem, ela arrasta muito lixo. Depois ficam poças de água suja, cheias de mosquitos, e começam as doenças”, relata.

A idosa Francisca, residente antiga da rua, carrega no rosto e nas palavras as marcas de sucessivas perdas. “Já perdi muita coisa por causa da água das chuvas. A água entra dentro de casa e estraga tudo, não respeita ninguém”, lamenta, com a voz carregada de revolta.

Noites de medo e tensão constante
Entre os mais jovens, o receio também é permanente. Josiene Contreiras, moradora há 19 anos, afirma que as noites chuvosas são vividas em estado de alerta. Já Miguel António, de 45 anos, sublinha que o sofrimento não termina quando a chuva cessa. “Não é só a enchente. Depois vêm o lixo, o mau cheiro e as doenças. A chuva passa, mas os problemas ficam”, denuncia.

Um problema antigo e repetidamente denunciado
Há quem acompanhe esse drama há décadas. A idosa Rosária Pinto, moradora da Rua da Brigada desde 1983, recorda que, apesar das promessas e das denúncias, pouco mudou. “Desde esse tempo que sofremos com enchentes. As mobílias estragam e ninguém resolve”, desabafa.

A situação da Rua da Brigada — à semelhança de outras zonas do Rangel — tem sido alvo de sucessivas reportagens ao longo dos anos. Desde a década de 1990, os órgãos de comunicação social denunciam alagamentos, destruição de bens e, em casos mais graves, o desabamento parcial de casas provocado pelas chuvas. Nos anos 2000, com o crescimento populacional e a ocupação desordenada, os alertas passaram a incluir os riscos à saúde pública, associados à água parada e à proliferação de mosquitos.

Obra recente, confiança limitada
Entre 2015 e 2024, o problema voltou a dominar os noticiários durante os períodos de chuva intensa, com imagens recorrentes de ruas submersas, moradores a retirar água das casas e famílias obrigadas a procurar abrigo temporário.

Recentemente, por orientação do administrador do Rangel, foi realizada uma obra de drenagem na Rua da Brigada, com o objectivo de minimizar os alagamentos. A intervenção incluiu melhorias no escoamento das águas e a desobstrução de pontos críticos. Ainda assim, o cepticismo reina entre os moradores.

Manuel Salvador, trabalhador na área há três anos, resume o sentimento da comunidade: “A obra ajudou um pouco, mas enquanto o lixo continuar a entupir tudo, a enchente vai continuar a entrar e a destruir bens. É preciso manutenção constante e mais consciência de todos.”

Entre a esperança e o medo
Às portas de mais uma época chuvosa, a Rua da Brigada continua suspensa entre a esperança e o receio. Para quem ali vive, o passado e o presente confundem-se numa mesma realidade: a de um problema antigo, amplamente denunciado, que insiste em continuar a castigar famílias inteiras sob a ameaça permanente das enchentes.

Texto: Francisca José