O circuito do consumo de drogas alimenta-se, muitas vezes, de fontes invisíveis dentro das próprias famílias. Em Caxito, um adolescente de 15 anos — cuja identidade é preservada por ser menor de idade — utiliza diariamente parte do rendimento obtido no comércio da mãe para comprar substâncias ilícitas, num ciclo que expõe a fragilidade dos mecanismos de proteção à infância e adolescência.
O jovem, identificado como Bruno F. para fins desta reportagem, trabalha numa bancada de venda de fuba no Mercado do Kawango, ao lado de outras crianças e adolescentes que comercializam produtos agrícolas. Segundo relato obtido em entrevista, o dinheiro arrecadado com as vendas é canalizado para a aquisição de liamba, libanga (cloridrato de cocaína), cigarros e outros produtos nocivos à saúde.
Questionado sobre os riscos do consumo, o adolescente demonstrou desconhecimento dos danos físicos e psicológicos associados às drogas. Em tom desafiador, citou o músico angolano Nagrelha — falecido em 2021 após complicações relacionadas ao uso prolongado de substâncias — como referência para seus hábitos.
“Eu gosto de fumar, isso faz-me recordar as músicas do Nagrelha. São meus vícios e não é da conta de ninguém”, afirmou.
Especialista alerta para falência de protecção social
Para o sociólogo Pedro Sebastião, a situação ilustra uma “falência moral colectiva”, onde crianças e adolescentes transformam drogas num “mundo de fuga”, muitas vezes incentivados por referenciais distorcidos da cultura popular.
“Estamos perante um quadro negro que exige intervenção urgente das autoridades. Sem políticas públicas efectivas de protecção à criança e ao adolescente, caminhamos para uma geração comprometida por dependências químicas”, alertou o académico.
Sebastião apela à mobilização de pais, encarregados de educação e líderes comunitários para um acompanhamento mais próximo dos adolescentes, sublinhando que «não há desenvolvimento sustentável sem juventude saudável». Defende ainda a criação de mecanismos de inserção social que ofereçam alternativas concretas ao ócio e à exposição precoce ao comércio informal desprotegido.
Segundo dados do Instituto Nacional de Saúde Pública de Angola, o consumo de drogas entre adolescentes tem crescido nas zonas urbanas e periurbanas, com início cada vez mais precoce — entre os 12 e os 15 anos. A libanga, em particular, está associada a danos neurológicos irreversíveis, perda de memória, psicoses e elevado risco de dependência em curto prazo.
