Cerca de 400 funcionários do supermercado Big One, no bairro Alvalade, município da Maianga, em Luanda, têm assistido, de forma impotente, à degradação progressiva do estabelecimento onde trabalhavam, enquanto autoridades competentes mantêm-se inertes face aos repetidos atos de vandalismo e saques que ocorrem no local.
O estabelecimento encontra-se encerrado há cerca de um ano por decisão do Tribunal da Comarca de Luanda, a pedido do Banco de Comércio e Indústria (BCI), no âmbito de um processo de dívida que ainda aguarda resolução. Desde então, o espaço tem sido alvo de assaltos constantes, com equipamentos de valor, mercadorias e infraestruturas a serem sistematicamente furtados ou destruídos.
Segundo informações apuradas junto de moradores e da direção da empresa, os furtos já causaram prejuízos avaliados em vários milhões de kwanzas. Entre os bens roubados constam máquinas industriais de produção de gelo, equipamentos de salão de beleza, cadeiras, eletrodomésticos e outros artigos comerciais de alto valor.
No último fim de semana, a situação agravou-se com a vandalização de um contentor que armazenava mercadorias pertencentes a um diplomata, registada em vídeo por um morador da zona. Apesar do registo e da comunicação ao tribunal, a resposta das autoridades continua a ser considerada insuficiente pelos afetados.
“É triste ver uma loja com tanto prestígio ser destruída desta forma”, lamentam residentes locais.
A direção da Big One afirma ter apresentado múltiplas queixas formais tanto ao tribunal como à Polícia Nacional, na esquadra da Maianga, sem que, até ao momento, tenham sido adotadas medidas eficazes para proteger o património pendente de decisão judicial.
Em Abril de 2025, a empresa viu-se obrigada a suspender o vínculo laboral de cerca de 380 trabalhadores, na sequência do encerramento judicial do estabelecimento.
Muitos desses funcionários, que dependiam do salário para sustentar as suas famílias, permanecem sem perspectiva de retorno ao trabalho, enquanto o processo se arrasta nos tribunais.
Em comunicação dirigida à Inspeção Geral do Trabalho (IGT) e a outras instituições do Estado, a Big One justificou a suspensão com base no processo judicial n.º 1446/2022-F, que resultou na penhora do imóvel onde operava. A empresa alega ainda desconhecer o desfecho e a duração do processo, bem como a ausência de resposta a recursos interpostos.
A morosidade na atuação das autoridades tem gerado crescente indignação entre ex-funcionários, proprietários e moradores do bairro Alvalade. Apesar de uma equipa policial ter-se deslocado ao local na tarde de terça-feira, 28 de Abril, após nova denúncia, nenhuma medida concreta de proteção foi garantida.
“A empresa já apresentou várias queixas ao tribunal e à Polícia Nacional. Apenas nesta terça-feira uma equipa policial deslocou-se ao local, mas sem garantir qualquer solução concreta”, refere uma fonte ligada à administração da Big One.
Até ao fecho desta reportagem, nem a Polícia Nacional nem o Tribunal da Comarca de Luanda se pronunciaram oficialmente sobre as alegadas falhas na proteção do estabelecimento. O BCI, enquanto instituição requerente do encerramento e fiel depositário através do Grupo Carrinho, também não emitiu comunicado sobre a responsabilidade na salvaguarda dos bens penhorados.
Perspectivas incertas
Enquanto o impasse judicial persiste, o Big One — outrora um dos estabelecimentos comerciais de referência na capital angolana — continua a deteriorar-se, com ex-funcionários a verem as suas expectativas profissionais esvanecerem-se e a comunidade local a questionar o papel do Estado na proteção da propriedade e na aplicação da lei.
A situação levanta questões urgentes sobre a eficácia dos mecanismos de proteção de bens em litígio judicial e sobre o impacto humano de processos morosos que deixam centenas de trabalhadores em situação de vulnerabilidade.
