A falta de espaços adequados para a realização de sessões de teatro na província do Bengo, sobretudo em Caxito, tem levado os fazedores de arte a recorrerem a quintais de residências para apresentar os seus espetáculos. A denúncia foi feita por ocasião do Dia Mundial do Teatro, celebrado a 27 de março, quando vários artistas locais voltaram a destacar as dificuldades que enfrentam para desenvolver a actividade.

A efeméride foi marcada por reflexões sobre os principais desafios do sector, que vão desde a ausência de salas apropriadas até ao reduzido investimento nos grupos teatrais locais.

José Sebastião Manuel, conhecido artisticamente como Sebastião Político, é actor há cerca de 30 anos e membro fundador do grupo Mensageiro de Caxito. Segundo relata, iniciou a sua trajetória ainda na escola, onde descobriu no teatro uma forma de terapia, uma fonte de energia positiva e uma ferramenta de transformação pessoal. O artista destaca que o teatro na província enfrenta inúmeras dificuldades, sobretudo pela falta de espaços adequados, pouco incentivo e escasso apoio financeiro.

José fala também da necessidade de criação de mais salas e de um fundo de apoio às artes. Para ele, investir no teatro é essencial para fortalecer a cultura e garantir a continuidade do trabalho artístico.

Também com uma longa trajectória, Lourenço Adão, conhecido como Kimbumbata, é actor há 25 anos, director-geral do grupo Muateu da Igreja Católica de Santa Ana e integrante do projecto Anadange. Para o artista, o teatro na província do Bengo desempenha um papel fundamental como ferramenta educativa e de transformação social, reflectindo o quotidiano e orientando a comunidade sobre as consequências das suas acções.

Segundo Kimbumbata, os grupos teatrais mantêm-se activos e comprometidos com a promoção de valores, apesar das inúmeras dificuldades. A principal preocupação continua a ser a falta de espaços adequados para ensaios e apresentações. Actualmente, muitos grupos ensaiam em quintais devido à inexistência de infraestruturas apropriadas, e não há uma sala de teatro funcional em Caxito. O antigo Cine Teatro permanece sem esclarecimentos quanto à sua reabilitação e funcionamento.

Ainda assim, os artistas mostram resiliência, participando em palestras e procurando oportunidades fora da província, especialmente em Luanda, como forma de manter viva a prática teatral e promover a troca de experiências.

Damião Catito, estudante do curso de História, considera que o teatro no Bengo “vive de resistência”, e não de políticas públicas estruturadas. Segundo ele, há talentos evidentes, mas falta investimento contínuo que permita transformar esse potencial em impacto real.

Na mesma linha, Abraão Quibata Fernando afirma que, sem infraestruturas culturais, o teatro torna-se uma prática de sobrevivência e não de desenvolvimento. Apesar de gostar de teatro, lamenta a dificuldade em assistir a espetáculos na província, devido à escassez de espaços adequados.

Os fazedores de arte aproveitaram a ocasião para apelar às autoridades locais por maior atenção ao sector. Para eles, o palco existe e o talento também — falta apenas que haja mais apoio para que as “luzes” do teatro brilhem com maior intensidade.

Mesmo diante das adversidades, o teatro continua a afirmar-se como uma importante ferramenta de educação, cultura e reflexão social no Bengo. Contudo, os entrevistados sublinham que as políticas de fomento ao sector ainda são tímidas e precisam ser reforçadas para valorizar a identidade cultural e apoiar efectivamente os grupos locais.

Texto: Sílvia Mário