A fome tem levado várias crianças a percorrer longas distâncias em busca de alguma forma de sobrevivência na Centralidade do Capari. Vindas da localidade do Porto Seco, muitas caminham cerca de cinco quilómetros até à centralidade, enfrentando sol intenso, poeira e outros riscos, com o objectivo de realizar pequenos trabalhos em troca de dinheiro ou alimentos.
Quando a fome aperta, nem sempre é possível manter o controlo. O instinto de sobrevivência fala mais alto, levando estas crianças a aceitar qualquer actividade que lhes permita garantir algo para comer.
Entre os menores que se dedicam a estas atividades estão Afonso e José, com idades entre os 9 e os 16 anos. Os dois trabalham principalmente na recolha de lixo, alegando que em casa muitas vezes falta comida. Eles percorrem os blocos da centralidade batendo de porta em porta, na expectativa de encontrar moradores dispostos a entregar sacos de lixo para serem levados até aos contentores.
Segundo os próprios, o pagamento varia normalmente entre 100 e 200 kwanzas. Quando os moradores não dispõem de dinheiro, as crianças pedem alimentos em troca do serviço prestado.
A situação tem causado tristeza entre alguns moradores da centralidade, que reconhecem tratar-se de menores em situação de vulnerabilidade. Alberto Francisco, morador do Bloco 5, e Maria João, do Bloco 8, afirmam que frequentemente recebem estas crianças em suas casas.
“Eles batem às nossas portas pedindo lixo para deitar fora e, em troca, damos algum dinheiro ou comida. Mesmo sendo pouco, tentamos dar alguma esperança de que algo possa mudar”, afirmaram.
Outra moradora, Francineth Bernardo, conta que tem visto inúmeras vezes crianças a circular pela centralidade à procura de serviços. Segundo ela, mesmo quando não há lixo para entregar, sente-se na obrigação de oferecer algo para comer, demonstrando solidariedade para com os menores.
Já o jovem Cláudio, também residente na centralidade, afirma que o período da manhã é o mais frequente para a presença das crianças. Ele condena a prática do trabalho infantil e considera que muitas vezes há exploração.
“Muitas vezes o valor pago às crianças não corresponde ao trabalho que realizam. Há vizinhos que lhes entregam quatro ou cinco sacos de lixo e no final dizem que só têm 50 kwanzas. No meu entender, isso é exploração”, criticou.
Revoltado com a situação, Cláudio apela à responsabilidade dos pais e encarregados de educação, defendendo a necessidade de mais cuidado com as crianças e respeito pelos seus direitos.
Alberto Francisco acrescenta ainda que, em alguns casos, o lixo recolhido pelas crianças nem sempre chega aos contentores, sendo por vezes abandonado em esquinas da centralidade.
Além da recolha de lixo, os menores também realizam outros pequenos serviços, como capinagem, jardinagem, lavagem de tapetes, motos e carros, bem como limpeza de vidros. Os preços destes trabalhos variam entre 500 e 2 mil kwanzas. Quando não recebem dinheiro, as crianças acabam por aceitar frutas, roupas usadas ou comida como forma de pagamento.
Por: João Muginga
