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À espera de um pé no banco: A dura luta dos engraxadores para sobreviver em Luanda

por UYELE – ASSOCIAÇÃO CÍVICA | mar 17, 2026 | Media, Reportagem

Em várias ruas de Luanda, entre edifícios públicos, bancos e estabelecimentos comerciais, pequenos bancos de madeira e caixas de engraxar continuam a fazer parte da paisagem urbana. São os instrumentos de trabalho de dezenas de jovens que, todos os dias, disputam a atenção dos clientes para garantir o sustento.

Para muitos deles, engraxar sapatos não é apenas um serviço — é uma forma de sobrevivência num contexto marcado pelo desemprego e pela escassez de oportunidades. Sentados à beira do passeio, esperam pacientemente que alguém pare, coloque o pé no banco e lhes dê a oportunidade de ganhar algum dinheiro.

“Muita gente passa e nem olha. Sou tipo uma sombra, entendeste? Mas quando um cota pisa no banco e coloca o pé, a esperança volta outra vez”, conta Mauro, engraxador há vários anos numa das zonas movimentadas da cidade.

Segundo os próprios trabalhadores, o movimento já não é o mesmo de outros tempos. A diminuição de clientes e a concorrência em alguns pontos da cidade tornam o dia de trabalho cada vez mais incerto.

“Antigamente não parávamos. Era sai um, entra outro. Hoje ficamos aqui só a olhar o movimento, à espera que apareça alguém com sapato para engraxar”, relata um dos jovens que partilha o mesmo espaço de trabalho.

Sem contrato formal, proteção social ou qualquer tipo de benefício laboral, os engraxadores dependem exclusivamente do movimento das ruas. Em dias de chuva ou quando há pouco movimento, o rendimento pode simplesmente não existir.

Os preços variam geralmente entre 100 e 500 kwanzas, dependendo do tipo de calçado e do serviço solicitado. Para quem trabalha na actividade, cada cliente pode representar a diferença entre conseguir garantir a refeição do dia ou voltar para casa de mãos vazias.

A realidade dos engraxadores reflete também o peso do sector informal na economia angolana. Diversos relatórios de instituições nacionais e organismos internacionais indicam que uma parte significativa da população economicamente activa trabalha fora do mercado formal, sobretudo em actividades como comércio ambulante, pequenos serviços e transporte informal.

Especialistas apontam que factores como o desemprego juvenil, a escassez de vagas no sector formal e as limitações na qualificação profissional contribuem para o crescimento dessas actividades.

“No caso dos engraxadores, a actividade exige um investimento inicial muito baixo — basicamente uma caixa de engraxar, escovas e panos. Isso facilita a entrada, mas não garante estabilidade financeira a longo prazo”, explica Pedro Baltazar, estudante universitário.

Apesar das dificuldades, muitos profissionais defendem a dignidade do trabalho que exercem. Para eles, engraxar sapatos representa uma alternativa honesta num cenário onde o risco de marginalização social e criminalidade também existe.

“É um trabalho simples, mas digno. É melhor lutar aqui todos os dias do que seguir por caminhos errados”, afirma Ana Matias, estudante de Economia que acompanha estudos sobre o sector informal.

Enquanto o debate sobre formalização e políticas de emprego continua, a realidade nas ruas permanece praticamente a mesma. Entre escovas, panos e latas de graxa, os engraxadores seguem sentados nos passeios da cidade, à espera de um cliente que possa transformar mais um dia de incerteza numa pequena vitória.

Por: Francisca José 

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