No bairro Mirú, no município de Viana, a água potável tornou-se um privilégio para poucos e uma luta diária para muitos. Em pleno espaço urbano — onde se esperaria equidade no acesso a serviços básicos —, dezenas de famílias vivem há cerca de cinco anos sem abastecimento de água canalizada, numa realidade marcada por desigualdade, frustração e silêncio institucional.

O cenário é contraditório e revoltante: enquanto em algumas casas a água corre normalmente pelas torneiras, em outras nem sequer chegou a passar um tubo de canalização. A poucos metros de distância, a diferença é visível: de um lado, torneiras abertas; do outro, baldes vazios.

“Na minha casa nunca correu água. Nem os tubos de canalização chegaram aqui. Já faz mais de cinco anos que vivemos assim”, relata António Manuel, morador antigo do bairro.

Segundo ele, a família sobrevive comprando água de vendedores informais ou caminhando longas distâncias até chafarizes públicos. “É humilhante. Água é vida, não é luxo”, lamenta.

A ausência prolongada do abastecimento afecta directamente o quotidiano das famílias. Mulheres e crianças são as mais penalizadas, dedicando horas do dia à busca de água para cozinhar, lavar roupa e manter o mínimo de higiene doméstica.

“Às vezes acordo às quatro da manhã para tentar buscar água antes que acabe”, conta Maria da Conceição, mãe de cinco filhos. “Enquanto isso, vejo casas aqui perto onde a água corre todos os dias. Parece que não vivemos no mesmo bairro.”

Além do desgaste físico, o impacto financeiro é pesado. Muitos moradores afirmam gastar uma parte significativa da renda mensal na compra de água — recurso que deveria ser garantido pelo sistema público.

“Pagamos água mais cara do que quem tem torneira em casa”, afirma João Paulo, jovem residente do Mirú. “Quando o camião-cisterna aparece, o preço sobe. Se não comprarmos, ficamos sem água.”

A situação também levanta sérias preocupações de saúde pública. Sem acesso regular à água tratada, algumas famílias recorrem a fontes improvisadas ou a armazenamento inadequado, aumentando o risco de doenças de veiculação hídrica.

“Já tivemos casos de diarreia aqui em casa por causa da água que compramos sem saber a origem”, relata uma moradora que preferiu não se identificar. “As crianças são as que mais sofrem.”

O sentimento dominante entre os moradores é de injustiça. Muitos questionam os critérios utilizados para a instalação da rede de canalização, já que algumas ruas foram contempladas e outras permaneceram completamente excluídas.

“Não entendemos como funciona essa distribuição. Somos todos do Mirú, mas parece que existem moradores de primeira e de segunda”, desabafa Helena Chipenda, outra residente.

Apesar das múltiplas reclamações encaminhadas às autoridades locais e às entidades responsáveis pelo abastecimento, os moradores afirmam que, até ao momento, não houve solução concreta. Alguns dizem já ter perdido a esperança, mas continuam a denunciar a situação para que o problema não seja esquecido.

“Cinco anos sem água não é descuido, é abandono”, reforça António Manuel.

A população do bairro Mirú apela a uma intervenção urgente que inclua a extensão da rede de canalização às zonas ainda excluídas e uma distribuição equitativa do serviço. Para os moradores, o acesso à água potável não pode continuar a ser tratado como privilégio.

Enquanto em algumas casas a água corre diariamente, outras permanecem secas há meia década — uma realidade que contrasta frontalmente com o direito universal ao acesso à água. No Mirú, a espera já dura cinco anos e a indignação cresce a cada dia.

Por: Sílvio Francisco