Na Ilha do Cabo, bairro populoso de Luanda, a cena repete-se diariamente: grupos de jovens reunidos em quiosques, esquinas ou simplesmente à beira da rua, de olhos fixos nos ecrãs dos telemóveis, aguardando ansiosamente o apito final de jogos europeus e africanos. O que antes era encarado como um simples passatempo transformou-se, para muitos, numa rotina obsessiva — uma busca incessante por rendimento rápido num contexto marcado pelo desemprego estrutural e pela escassez de perspectivas.
A facilidade de acesso às plataformas digitais, aliada à publicidade intensa nas redes sociais, tem impulsionado este fenómeno. Para grande parte da juventude local, as apostas surgem como uma alternativa ilusória à instabilidade económica, alimentando o sonho de um ganho imediato capaz de transformar a realidade pessoal e familiar.
“Comecei por brincadeira, mas hoje aposto quase todos os dias”, relata António, de 21 anos, morador do bairro. Sem emprego fixo, ele destina parte do que ganha com biscates às apostas. “Quando ganho, fico motivado. Quando perco, penso que na próxima vou recuperar tudo.”
Carlos, de 24 anos, também residente da Ilha do Cabo, vive uma experiência marcada pela frustração. Entrou no mundo das apostas influenciado por amigos e hoje reconhece o ciclo vicioso em que se encontra. “No início parecia fácil ganhar, mas quase sempre perco. Cada derrota deixa-me revoltado comigo mesmo. Já prometi várias vezes parar, mas volto sempre com a ideia de recuperar o que perdi”, confessa.
Já Manuel, de 26 anos, decidiu afastar-se completamente após algumas tentativas infrutíferas. “Joguei algumas vezes, perdi tudo e percebi que aquilo não era para mim. Hoje acho que é um sistema viciado — quase ninguém ganha de verdade. Preferi procurar outras formas de sobreviver”, afirma.
O impacto do fenómeno estende-se às famílias. Dona Marta, mãe de três filhos — dois deles apostadores assíduos — lamenta a situação. “Eles passam o dia todo colados ao telefone à espera de resultados. Já houve discussões em casa por causa de dinheiro. Como mãe, dói ver os filhos a depositarem esperança nisso, em vez de estudarem ou procurarem trabalho”, desabafa.
No plano económico, os efeitos são igualmente preocupantes. Um comerciante local relata ter presenciado jovens gastarem o pouco que possuem em apostas. “Muitos chegam aqui sem dinheiro nem para comer, mas arranjam sempre algum valor para apostar. Alguns pedem fiado, outros vendem objectos pessoais. Isso mostra como o vício está a crescer”, observa.
Especialistas em saúde mental alertam para os riscos psicológicos associados. Segundo a psicóloga Adelina José, o sistema de recompensas intermitentes das apostas pode gerar dependência, sobretudo entre jovens que enfrentam frustração social e ausência de perspectivas. “A aposta funciona como uma fuga emocional. O jovem procura ali não apenas dinheiro, mas também esperança e uma ilusória sensação de controlo sobre a própria vida”, explica.
Os reflexos já são visíveis na comunidade: conflitos domésticos, endividamento informal e a venda de bens pessoais para sustentar o hábito tornaram-se relatos corriqueiros.
Na Ilha do Cabo, plataformas como Premier Bet, Elephant Bet e Lotaria Nacional são amplamente utilizadas pela juventude, impulsionadas por campanhas publicitárias agressivas e pela acessibilidade via telemóvel. Contudo, especialistas defendem que as iniciativas de sensibilização existentes são insuficientes e carecem de maior apoio institucional, integrando-se em políticas públicas mais amplas de juventude e emprego.
Para muitos observadores, a resposta exige um esforço conjunto: o Estado deve regular com rigor a publicidade e o acesso; as escolas precisam incluir educação financeira e prevenção de dependências nos currículos; as famílias e comunidades devem fortalecer redes de apoio; e é urgente criar oportunidades reais de emprego e formação profissional.
Enquanto isso não acontece, na Ilha do Cabo milhares de jovens continuam à espera do próximo apito final — com um telemóvel no bolso, dívidas no coração e a esperança, ainda viva, de que a próxima aposta será, finalmente, a virada decisiva.
Texto de Francisca José
