O município do Dande, na província do Bengo, testemunhou na sexta-feira, 30 de Janeiro de 2026, um momento histórico para o jornalismo angolano com a inauguração da primeira micro‑redacção de jornalismo comunitário do país. A iniciativa, promovida pela Associação Cívica Uyele, visa aproximar a informação das comunidades periféricas, dar voz a cidadãos frequentemente excluídos do debate público e fortalecer a participação cidadã como expressão concreta da liberdade de expressão.
Instalada numa zona periférica do município, a redacção foi pensada pela e para a comunidade, constituindo-se como um marco na democratização do acesso à informação em Angola. Segundo a organização, trata-se do primeiro espaço do género no país inteiramente dedicado à produção jornalística local a partir do território.
Na cerimónia de abertura, o presidente da Associação Cívica Uyele, Rafael Francisco Morais, afirmou que a iniciativa vai muito além do simbolismo: “Este espaço representa um marco histórico no percurso da nossa associação e no esforço contínuo de democratizar o acesso à informação, fortalecer a participação cidadã e afirmar a liberdade de expressão não como privilégio de poucos, mas como um direito de todos.”
Morais sublinhou ainda que as comunidades periféricas não são “territórios de silêncio”, mas espaços de vozes que merecem ser ouvidas. “Durante demasiado tempo, as realidades locais foram ignoradas, distorcidas ou tratadas como nota de rodapé. Hoje, damos um passo concreto para mudar essa lógica”, declarou.
A micro‑redacção tem como objectivo central fortalecer a produção e difusão de informação relevante para as comunidades das províncias de Bengo, Ícolo e Bengo e Luanda, através da criação e consolidação de estruturas comunitárias de jornalismo. A iniciativa promove o acesso à informação, incentiva a participação activa dos cidadãos e reforça o exercício pleno da liberdade de expressão.
“Aqui, o jornalismo deixa de ser distante. Passa a ser próximo — vivido no bairro, na escola, no mercado, na rua, na voz de quem sente os problemas e também constrói soluções”, afirmou Morais.
Durante o acto, foi apresentado formalmente o termo de responsabilidade do mentor da micro‑redacção do Dande, João Afonso, que passa a acompanhar o trabalho dos repórteres comunitários, assegurando orientação técnica, ética e editorial. Afonso afirmou que o projecto nasce com um forte sentido de responsabilidade social, inspirado no trabalho “nas comunidades, para as comunidades”, defendendo um jornalismo comprometido com os reais problemas da população.
O mentor não escondeu, contudo, os desafios inerentes ao exercício do jornalismo comunitário. Um dos principais obstáculos, segundo Afonso, é o difícil acesso às fontes oficiais, sobretudo ao nível da administração pública. “Mesmo jornalistas com experiência profissional enfrentam obstáculos para obter informações básicas, sendo muitas vezes remetidos a documentos oficiais sem sucesso imediato. As fontes são fechadas, mas a nossa sede de servir a comunidade exige maior compromisso e perseverança”, afirmou.
A equipa inicial é composta por quatro repórteres comunitários formados no próprio município do Dande, no âmbito de um projecto de capacitação em jornalismo comunitário também impulsionado pela Uyele. Jovens e adultos comprometidos a informar com ética, responsabilidade social e respeito pela verdade, colocando sempre o interesse público em primeiro plano.
Um deles, João Muginga, destacou a importância da colaboração entre os diferentes projectos ligados à Associação Uyele, considerando-a essencial para fortalecer a produção de conteúdos e responder às necessidades da comunidade. “Essa colaboração é muito importante para nós e para a comunidade inteira, que enfrenta problemas profundos em várias áreas”, disse.
Muginga apontou igualmente dificuldades no exercício da profissão, sobretudo na relação com instituições do Estado. De acordo com o repórter, pedidos de entrevistas têm sido recusados, mesmo quando envolvem temas sensíveis como a falta de assistência médica e outras carências sociais que afectam directamente as comunidades.
Apesar dos constrangimentos, os jovens profissionais garantem que continuarão a estar no terreno — nas ruas, escolas e mercados — apostando num jornalismo mais próximo, criativo e atento à realidade local, com o objectivo de contribuir para o desenvolvimento, a cidadania e a transparência no município do Dande.
Durante a cerimónia, foram entregues quatro computadores e outros equipamentos técnicos aos jornalistas, reforçando as condições materiais para o exercício da actividade. A organização, contudo, não se limita a solicitar a produção de notícias: exige que os repórteres escutem, observem, questionem, documentem e devolvam dignidade às histórias da sua própria comunidade.
No âmbito do projecto, está prevista a produção de, no mínimo, 48 conteúdos jornalísticos ao longo do ano — incluindo textos, fotografias, áudios e vídeos — o que corresponde a pelo menos um trabalho publicado por semana. Segundo a Uyele, esse compromisso editorial já começou a ser cumprido desde o final de 2025.
Cada conteúdo publicado deverá ser mais do que informação: será memória colectiva, denúncia quando necessário, visibilidade para quem nunca teve palco e expressão concreta de cidadania em acção.
A organização reforça que o espaço inaugurado não é apenas uma sala equipada, mas um território de liberdade, um laboratório de vozes e um instrumento de resistência cívica e democrática.
Dirigindo-se aos repórteres, a Associação Cívica Uyele deixou um apelo claro: fazer deste espaço um lugar de verdade, coragem e serviço público.
A inauguração insere-se num trajecto mais amplo da Uyele, que tem vindo a desenvolver, em diversos municípios do país, projectos ligados à promoção dos direitos humanos, educação cívica, liberdade de imprensa e fortalecimento da participação comunitária. Ao longo dos últimos anos, a associação tem impulsionado formações em jornalismo comunitário, iniciativas de capacitação juvenil, debates públicos, acções de literacia cívica e projectos de monitoria social, com enfoque especial em comunidades periféricas e grupos historicamente sub‑representados.
Estas acções visam contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, informada e participativa, colocando os cidadãos no centro do processo de produção de informação e de fiscalização da vida pública.
No encerramento da cerimónia, Rafael Francisco Morais deixou um desejo: “Que o Dande seja exemplo. Que a periferia deixe de ser apenas retratada e passe a narrar a sua própria história.”
Texto de Francisca José
