Por : Evânia dos Anjos &  Simão Hossi

O Mercado do Sassa, localizado na província do Bengo, a cerca de quatro a cinco quilómetros da cidade de Caxito, funciona há mais de 25 anos. Comerciantes afirmam que a retirada do parque de táxis afastou clientes, agravou a crise nas vendas e aumentou a insegurança no local.

Vendedores do mercado e da antiga paragem de táxis intermunicipais e interprovinciais reclamam da falta de clientes, de segurança e de infraestruturas adequadas. Recordam que o Sassa já foi uma referência no comércio de produtos do campo e na venda de carne de caça, sendo uma paragem obrigatória para comerciantes e taxistas provenientes de municípios e províncias como Uíge, Luanda e Zaire.

Segundo os comerciantes, a situação começou a mudar com a pandemia da Covid-19, em 2020. Para conter a propagação do vírus, as autoridades decidiram dividir o mercado, reduzindo o fluxo de pessoas. Uma parte dos vendedores foi transferida para o Mercado do Cawango, enquanto outra permaneceu no Sassa.

A nossa equipa de reportagem da Uyele deslocou-se ao local para ouvir os vendedores sobre o estado actual do mercado. Os comerciantes afirmam que acreditavam que, com o fim da pandemia, tudo voltaria ao normal. No entanto, passados mais de quatro anos, dizem que nenhuma melhoria foi registada. A maioria dos clientes continua a concentrar-se no Mercado do Cawango, sobretudo porque a paragem que liga os municípios e outras províncias permanece naquele local. Como consequência, o Sassa deixou de ser uma das principais fontes de receitas informais da província.

Sassa resiste, mas comerciantes pedem o regresso do parque de táxis

Antónica Avelino, vendedora de produtos do campo como batata, banana, mandioca e múcua no mercado desde 2005, conta que, no passado, as vendas corriam muito bem, uma vez que o Sassa era o único e maior mercado da região. Com a divisão, afirma que quase todos os clientes passaram a frequentar o Cawango, medida que, segundo ela, prejudicou seriamente os comerciantes do Sassa.

“Os veículos que vinham das províncias e dos municípios tinham como destino o parque do Sassa. Desde que a administração mudou o parque e dividiu o mercado com a criação do Cawango, as pessoas ficaram com preguiça de vir até aqui, alegando distância”, frisou.

Questionada sobre a possibilidade de ocupar um espaço no Mercado do Cawango, Antónica diz que não pretende sair do Sassa, alegando que já está habituada ao local. Acrescenta ainda que, durante a época chuvosa, o mercado do Cawango fica frequentemente alagado e não dispõe de espaço suficiente para albergar todos os vendedores.

Clientes trocaram o Sassa pelo Cawango devido devido à falta de transporte.

Rosa José Francisco, que vende comida e bebidas desde a fundação do mercado, relata que, no início da actividade, tudo o que confeccionava era vendido no mesmo dia, independentemente da quantidade. Os principais clientes eram motoristas e passageiros vindos de outros municípios e províncias.

Tal como Antónica, Rosa aponta a pandemia como o factor que transformou completamente o seu negócio. “Já não vendemos como antes. Por isso, reduzi a quantidade de comida para não estragar. Infelizmente, atendo apenas seis a sete clientes por dia”, lamentou.

 

Apesar das dificuldades, Rosa diz não pensar em abandonar o Mercado do Sassa, por possuir um espaço próprio e por estar emocionalmente ligada ao local de trabalho. Entre as razões para não se transferir para o Cawango, aponta a falta de saneamento básico, as más condições provocadas pelas chuvas e o receio de perder os clientes fiéis que a procuram por encomenda.

A vendedora afirma ainda que os comerciantes já recorreram à administração do mercado, solicitando o regresso do parque do Sassa como forma de revitalizar o comércio. Até ao momento, o pedido não foi atendido pela gestão do mercado, situado na comuna das Mabubas.

Outro vendedor ouvido pela nossa reportagem é Pinto Carlos Musseque, que comercializa no mercado desde 2016. Ele confirma que, no início, as vendas eram satisfatórias e concorda com as colegas quanto aos impactos negativos da pandemia, que levou à retirada do parque — considerado o principal factor de dinamização do mercado, devido à circulação de pessoas e mercadorias provenientes de vários municípios e províncias vizinhas do Bengo.

“O fracasso do mercado começou logo após a divisão. Tiraram o parque daqui. Os táxis que vinham de Luanda, sobretudo do mercado dos Kwanzas e do Kikolo, vinham directamente ao Sassa. O mesmo acontecia com os transportes vindos de Nambuangongo, Dembos, Ambriz, Pango Aluquém e Bula Atumba. Todos descarregavam aqui. Agora, só param no Cawango, e o Sassa ficou esquecido. Sobrevivemos pela graça de Deus”, lamentou.

“O Sassa é o primeiro, o maior e é histórico”, afirma a vendedora Antónia Francisco

O vendedor considera ainda que o problema se agrava pela falta de resposta das administrações Comunal das Mabubas e Municipal do Dande aos pedidos de apoio feitos pelos comerciantes. “Este sempre foi o meu local de trabalho, o meu ganha-pão está aqui. Se muitas mamãs foram para o Cawango, foi porque tiraram a paragem daqui. Nós resistimos pela graça do Senhor”, afirmou.

“Gostaríamos que o governo pensasse em nós”

Carlos Pinto denunciou também o aumento da insegurança no mercado. Segundo ele, o seu negócio — onde vende rádios, pilhas, pequenos painéis solares, colunas de som, pastas e mochilas — já foi alvo de furtos. Acrescenta que vendedores de comida, bebidas e produtos do campo também sofrem com roubos frequentes, sobretudo nas casas de arrumos. Os comerciantes apelam às autoridades para o reforço da segurança, temendo a vandalização das infraestruturas caso a situação persista.

“Gostaríamos que o governo pensasse em nós, que houvesse mais segurança e que o mercado voltasse a funcionar plenamente aqui”, apelou.

Questionado sobre a possibilidade de se transferir para o Mercado do Cawango, Carlos diz que não pode abandonar o Sassa, apesar das condições precárias, uma vez que, além de comerciante, também é camponês. “O meu lugar é aqui”, reforçou. Segundo ele, a administração do mercado promete regularizar a situação e garantir que tudo volte ao normal. “Dizem que é uma questão de tempo. Confiamos e estamos à espera”, concluiu.

Já Antónia José Francisco, vendedora de comida desde 2021, concorda com os colegas quanto à situação do mercado. A comerciante também atribui o fracasso actual à Covid-19, que levou à divisão do mercado e à valorização do Cawango, localizado no centro de Caxito. Apesar da quebra nas vendas, afirma que continua a pagar diariamente a taxa de 100 kwanzas.

Antónia diz não ver possibilidade de se transferir para o Cawango, alegando que, durante a época chuvosa, o mercado enfrenta sérios problemas de alagamento e falta de espaço. “O Sassa é um lugar amplo e melhor. Muitos já foram para lá e voltaram por causa das águas. O Sassa é o primeiro, o maior e é histórico”, afirmou. A vendedora acredita que, com o regresso do parque, a fiscalização poderá ser reforçada tanto durante o dia como à noite.

Esperançosa em dias melhores, Antónia apela à direcção do mercado e às autoridades administrativas para que tragam de volta o antigo funcionamento do Mercado do Sassa. Segundo ela, o regresso das paragens de táxis intermunicipais e interprovinciais poderá devolver a dinâmica económica que beneficiava todos.

A nossa reportagem tentou ouvir a gestão do mercado, na pessoa da administradora Clementina Nunda, que nos remeteu à Administração Comunal das Mabubas, alegando que só poderia pronunciar-se com autorização da administradora comunal. De acordo com o Gabinete de Comunicação Institucional do município do Dande, o mercado é tutelado pela Administração Comunal e supervisionado pela Administração Municipal. Apesar do pedido formal encaminhado à Administração das Mabubas, com conhecimento do GCI do município do Dande, até à publicação desta matéria não houve qualquer resposta.