No bairro Hoji Ya Henda, município do Panguila, província do Bengo, várias famílias estão a ser forçadas a abandonar as suas residências devido ao surgimento de uma lagoa que ameaça a saúde pública. Paradoxalmente, o local tornou-se também uma fonte de sobrevivência para muitos moradores, por servir de espaço de pesca.

Segundo relatos da população local, a lagoa teve origem em pequenos charcos de água das chuvas que, com o passar do tempo, se transformaram numa grande massa de água estagnada, com cheiro nauseabundo. Actualmente, fezes humanas e lixo doméstico contribuem para a coloração escura da água, agravando o risco sanitário para quem vive nos arredores.

A nossa equipa constatou a existência de várias casas abandonadas e quintais baldios, que têm sido usados como refúgio por jovens que, segundo moradores, passam grande parte do tempo a consumir bebidas alcoólicas e a fumar. Estes mesmos espaços têm sido utilizados para a prática de necessidades fisiológicas, criando um ambiente insalubre no interior do bairro.

Onde a fome e a doença se cruzam.

Apesar de representar uma séria ameaça à saúde pública, a lagoa é vista por alguns moradores como uma alternativa de subsistência. Dona Maria explica que muitas famílias recorrem à pesca no local para garantir o alimento diário. A actividade é exercida, maioritariamente, por crianças.

John, de 13 anos de idade, é uma dessas crianças. O menor afirma dedicar grande parte do seu tempo à pesca para ajudar a sustentar a família.

“Faço o possível para ajudar a minha mãe, porque nem sempre ela consegue vender na praça. Quando não há dinheiro, não há comida em casa”, contou. Apesar de reconhecer os riscos, John diz não ter outra alternativa.

“Sei que posso ficar doente por causa do lixo e das fezes, mas não suporto ver os meus irmãos passarem fome. Com o dinheiro da pesca consigo comprar alguns alimentos”, relatou emocionado.

Por outro lado, Manucho, de 32 anos, trabalhador de uma oficina, reconhece o esforço da comissão de moradores na busca de soluções. “A comissão tem realizado palestras para sensibilizar a população e organizado campanhas de limpeza”, afirmou.

O grito de socorro do bairro Hoji Ya Henda

No entanto, lamenta a falta de colaboração de alguns residentes, o que, segundo ele, compromete as iniciativas comunitárias. “Quando queremos melhorias, temos de ter vontade de fazer e não esperar que o governo faça tudo por nós”, acrescentou.

Importa referir que o surgimento da lagoa resulta da acumulação de águas paradas e da inexistência de latrinas em muitas residências próximas. A população afirma já ter contactado várias vezes a administração municipal para denunciar a situação, mas sem sucesso até ao momento.

A nossa reportagem tentou ouvir a responsável da comissão de moradores, que inicialmente recusou prestar declarações, solicitando o regresso da equipa no dia seguinte. Contudo, novas tentativas de contacto não obtiveram resposta.

O bairro Hoji Ya Henda localiza-se a cerca de 500 metros da Estrada Nacional n.º 100, no município do Panguila.

Texto de Evânia dos Anjos