A recente decisão do Governo Provincial de Luanda (GPL) de instituir tolerância de ponto nos dias 24 e 25 de Novembro de 2025 levantou questionamentos sobre os impactos diretos na já fragilizada economia da capital angolana.
A medida, justificada pela necessidade de segurança e contingência face a eventos de elevada mobilização social, teve consequências imediatas, sobretudo para as micro, pequenas e médias empresas e para as milhares de famílias que dependem do setor informal para a sua subsistência diária.
Em comunicado oficial emitido a 20 de novembro, o GPL justificou a medida extraordinária com base na Lei n.º 10/22, de 16 de Fevereiro, e na Lei n.º 15/16, de 12 de Setembro, reconhecendo o impacto inevitável sobre o tráfego rodoviário e a mobilidade dos cidadãos da província.
Entretanto, nas ruas e mercados de Luanda, a realidade contrasta com o alívio que os feriados prolongados tipicamente proporcionam aos trabalhadores formais. Para quem depende da renda diária, esses dias representaram mais prejuízo do que alívio.
O Eco das Ruas: Prejuízos imediatos
No centro da cidade, especialmente na Mutamba, diversos trabalhadores foram surpreendidos pela paralisação forçada das suas atividades. Maria João, vendedora de frutas há seis anos, partilhou o seu descontentamento: “Cada dia sem venda é uma refeição que falta para a minha família; não temos como guardar dinheiro para tantos feriados”.
O sentimento de preocupação é partilhado por José Paulo, mototaxista: “Não podemos apenas parar sem garantir segurança alimentar; quem depende da via sente a falta do dinheiro no bolso imediatamente”.
Os depoimentos evidenciam o impacto real dos feriados prolongados para quem vive da economia informal. Diferente dos trabalhadores formais, estes cidadãos não possuem salário fixo, férias pagas ou qualquer compensação nos dias não úteis.
Dona Rosa, que vende peixe na Estalagem, ilustra o dilema: “Quando não há movimento, não há vendas. O peixe estraga e eu perco dinheiro. Não tenho patrão que me paga sem trabalhar.” De igual modo, Mateus, um taxista que opera a rota Benfica-Kilamba, lamenta a quebra de rendimento: “Nos feriados, as pessoas ficam em casa. O trânsito diminui, e com ele, o meu rendimento. Mas a gasolina, a renda e a comida continuam a custar o mesmo”.
Análise económica e social
As vozes que ecoam da via pública de Luanda neste mês mostram que, apesar da intenção de garantir segurança e ordem pública, as decisões de tolerância de ponto expõem uma dura realidade social e a vulnerabilidade do setor informal.
Mário Tomás, agente de segurança, defende um equilíbrio necessário: “O descanso é muito importante, mas sem proteção social, somos fracos e os custos económicos acabam sendo muito altos para nós”.
Antónia Manuel, jovem estudante, complementa: “Poucos pensam nas mães de família que dependem do mercado para sobreviver. Os feriados prolongados beneficiam uns, mas prejudicam quem já vive da renda diária”.
O mês de novembro de 2025 somou cinco dias impactados por feriados e tolerâncias de ponto em Angola, três dos quais específicos para a cidade de Luanda.
Especialistas alertam que um número elevado de dias parados compromete o crescimento da economia não petrolífera e atrasa os planos de diversificação económica do país, afetando desproporcionalmente pequenos negócios, transportes e mercados populares.
Apesar de a importância dos feriados para o bem-estar social, convívio familiar e descanso ser inegável, a gestão destas pausas levanta um desafio crucial: o equilíbrio entre a segurança e a ordem pública e a sustentabilidade económica das famílias mais vulneráveis da capital angolana.
Por Francisca José e Sílvio Francisco
