A greve convocada pelas associações de taxistas de Angola colocou a cidade de Luanda num “estado de sítio”. Programada para os dias 28, 29 e 30 de Julho, a greve foi decretada contra o aumento dos preços dos combustíveis, que espoletou a subida do preço dos transportes coletivos urbanos do País, que passou para 200 Kwanzas nos autocarros públicos e 300 Kwanzas nos candongueiros azul e branco.
Texto de Simão Hossi
Cumprindo o primeiro dia de paralisação, os membros das associações de táxis coletivos em Luanda viram a sua greve tomar outro curso quando começou a verificar-se actos de destruição, pilhagens e roubos de bens alimentares e diversos em estabelecimentos comerciais por parte da população, com destaque para jovens, saturada com as dificuldades sociais e económicas que o País enfrenta.
Os actos de vandalismo, assaltos a lojas e armazéns praticados pelos populares começou nas imediações dos bairros Golf 2, Rocha Pinto, Benfica e Calemba 2, tendo alastrado para os outros municípios como Viana, Cazenga e Cacuaco, forçando o encerramento dos establecimentos comerciais por precaução. O mesmo cenário registou-se com as empresas de transportes urbanos e inter-provinciais, que tiveram de cancelar todos os serviços.
Numa nota publicada na sua página, a ANATA, organização que defende os interesses dos homens do volante, justifica que a sua convocatória para a paralização dos táxis coletivos apelava a que as pessoas ficassem em suas casas, pelo que nega qualquer ligação com as invasões de lojas e armazéns em quase toda a cidade de Luanda.

João Baptista
João Baptista, taxista a 7 anos e membro da “Placa Elenco de Cacuaco”, afirmou à nossa reportagem que “a greve será cumprida na íntegra, os três dias de paralização”, e espera que haja respostas por parte das autoridades de direito sobre a reivindicação que a sua associação apresenta.
Quem também foi ouvido pela nossa reportagem é Adão Maurício Norberto, chefe da “Staff Elenco de Cacuaco”, demarcou-se dos actos de vandalismo que estão a ocorrer, e diz que simplesmente estão a cumprir com rigor os objectivos da convocatória da greve em curso.
No terceiro dia da paralização dos serviços de táxis, continuam suspensos o comércio geral, a venda ambulante, os sectores públicos e privados, bancos, supermercados e armazéns. O maior mercado informal, o Kikolo, na cidade de Luanda, também encontra-se encerrado.

Adão Maurício Norberto | DR
Elias dos Santos, administrador-adjunto do mercado do Kikolo, descreveu que, “fruto da situação que se vive, calculamos perdas na arrecadação das receitas no valor de mais de três milhões de Kwanzas. Lamentou ainda que mais de dois milhões de vendedores cadastrados e não cadastrados estejam “a viver na pele as dificuldades por não conseguirem fazer as suas vendas com a situação vigente”.
O gestor avançou também que não sabe da previsão da reabertura das actividades do maior mercado informal a céu aberto na capital.
“Na segunda feira, por causa da situação, o mercado abriu com mais ou menos 20% no período da manhã. No dia seguinte tentamos abrir logo pela manhã, mas não tardou e fomos forçados a fechar por causa de tentativas de vandalismos. Hoje, dia 30, estamos encerrados, à espera da situação nos garantir segurança e até mesmo esperar por novas ordens juntos das autoridades de defesa e segurança”, frisou.
Os actos de destruições, pilhagens e roubos praticados pela população é caracterizado por analistas como sendo uma demostração dos descontentamentos dos cidadãos marginalizados, que vivem na pele os efeitos da carência e fome que muitos angolanos enfrentam por alta taxa de desemprego e crise económica de muitas famílias. Entendem também alguns analistas que o povo está a mandar um recado às autoridades sobre o estado de saturação causado pelas medidas económicas do governo que não está a se reflectir na vida dos governados. O País tem estado a gerir as medidas económicas que o governo do MPLA tem estado a implementar desde que João Lourenço assumiu o seu primeiro mandato como presidente da República de Angola.
