No bairro Xi-Muto, município da Barra do Dande, província do Bengo, o início do ano lectivo 2026-2027 voltou a trazer frustração para muitas crianças que sonham em frequentar a escola pela primeira vez.
A única escola do ensino primário existente na comunidade encontra-se abandonada há quase dois anos, desde a sua conclusão, por razões que permanecem desconhecidas. A população esperava que a instituição entrasse finalmente em funcionamento este ano, sobretudo depois de promessas feitas pela Administração Municipal da Barra do Dande.
Na altura, a Administração Municipal anunciou que uma equipa seria mobilizada para reorganizar as condições internas da instituição, de modo a permitir o início das aulas no novo ano lectivo, segundo relatos dos moradores.
Construída de raiz no âmbito do Programa Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), a escola terá custado mais de 140 milhões de kwanzas e é composta por sete salas de aula. Apesar do investimento, a instituição continua sem carteiras e quadros e apresenta actualmente um cenário de abandono.
Quase dois anos depois da sua conclusão, o espaço está tomado pelo capim, desde o pátio até às áreas exteriores. No interior, há tectos falsos danificados e portas sem fechaduras, situação que, segundo os moradores, facilitou a entrada de fumadores e transformou algumas dependências em locais usados como latrinas.
O estado de degradação da escola contrasta com as expectativas da população, que aguardava pela sua abertura para reduzir as dificuldades enfrentadas diariamente pelas crianças da região.

A falta de funcionamento da instituição obriga crianças dos bairros Xi-Muto, Nzimbi Ngo e Terra Prometida a percorrer aproximadamente três quilómetros até ao Complexo Escolar Terreiro n.º 322, localizado nas Casotas.
Domingos Gongas, encarregado de educação e morador próximo da instituição, afirma que tem sido difícil assistir diariamente às crianças a percorrerem uma distância tão longa, muitas vezes a pé.
“As nossas crianças estão expostas a perigos como atropelamentos e sequestros.”
Para os moradores, a entrada em funcionamento da escola poderia representar não apenas a redução da distância percorrida pelos alunos, mas também uma oportunidade para várias crianças que continuam fora do sistema de ensino.
António, conhecido por Tonilson, tem 13 anos e frequenta a 5.ª classe no Complexo Escolar Terreiro. Ao tomar conhecimento da situação vivida pelas crianças do seu bairro, decidiu também fazer um apelo ao Presidente da República para que sejam encontradas soluções.
“No meu bairro há muitas crianças com vontade de estudar, muitas delas com idades avançadas e que nunca frequentaram sequer a iniciação. Não sabem sequer escrever os próprios nomes. Por isso, seria bom se a escola entrasse em funcionamento neste ano lectivo.”
A preocupação do adolescente reflecte a realidade de várias famílias da comunidade, onde algumas crianças continuam sem acesso ao ensino por falta de uma escola pública próxima.
Jovem criou centro de explicação, mas sem sucesso
Manuel Dondo, de 23 anos, é outro jovem afectado pelas dificuldades de acesso à educação na comunidade. Conta que abandonou os estudos na 9.ª classe por falta de condições para prosseguir para o ensino médio.
Sensibilizado com o número de crianças que não conseguiram ingressar numa escola pública, Manuel decidiu criar um centro de explicação na comunidade. No entanto, a iniciativa não apresentou os resultados esperados devido às dificuldades financeiras das famílias e à falta de contribuições da população.
Rosalina Paulo, moradora do sector 4, no bairro Xi-Muto, é viúva e mãe de cinco filhos. Segundo conta, apenas um dos seus filhos frequenta actualmente a escola.
“As outras minhas crianças choram ao ver os amigos e vizinhos irem à escola, mas nada posso fazer, uma vez que não tenho capacidade financeira para colocá-las numa escola privada.”
Para Rosalina, a entrada em funcionamento da escola construída no bairro seria uma solução para muitas famílias que não têm condições financeiras para suportar os custos do ensino privado.
Enquanto a comunidade aguarda por uma resposta das autoridades, a escola permanece fechada e degradada, e o sonho de muitas crianças de estudar continua adiado.
Por: Edvânia dos Anjos
