O número de crianças que crescem sem o apoio e a presença paterna continua a aumentar na província do Bengo. A situação torna-se ainda mais preocupante quando afecta mulheres com deficiência física, apontadas como as principais vítimas de abandono por parte dos seus parceiros após a gravidez.

A denúncia foi feita pela Associação Nacional dos Deficientes de Angola (ANDA), que, no âmbito do Mês da Criança, manifestou preocupação com o crescente número de mulheres com deficiência física que são engravidadas e posteriormente abandonadas pelos pais dos seus filhos.

O secretário provincial para Informação e Advocacia da ANDA-Bengo, António António, explicou que os casos são recorrentes e que a instituição recebe frequentemente relatos de mulheres grávidas ou já com filhos que foram abandonadas pelos companheiros.

“Recebemos frequentemente reclamações de mulheres que são engravidadas e abandonadas pelos seus parceiros”, afirmou.

Segundo o responsável, muitos homens recusam assumir a paternidade, deixando inclusive os filhos sem registo civil. Perante esta realidade, a associação tem procurado apoiar as mães nos processos de registo e de inserção escolar das crianças.

António António considera alarmante o aumento destes casos, sobretudo porque muitas das mulheres afectadas vivem em situação de vulnerabilidade social e económica.

“Muitas dessas mulheres têm mais de três filhos e não possuem emprego”, lamentou.

A ANDA-Bengo revelou ainda que vários dos homens acusados de abandono possuem estabilidade financeira, sendo alguns funcionários públicos e trabalhadores do sector privado.

Maria Pascoal é uma das mulheres afectadas por esta situação. Em declarações à Uyele, relatou as dificuldades que enfrenta desde que foi abandonada pelo pai do seu filho.

“Quando descobri que estava grávida, pensei que receberia apoio do pai da criança. Infelizmente, aconteceu o contrário. Ele afastou-se e deixou-me sozinha. A minha condição física já me obriga a enfrentar muitos desafios no dia a dia e, agora, tenho de criar um filho sem qualquer ajuda”, desabafou.

Também Márcia Damião, mãe de quatro filhos, afirma sustentar sozinha a família devido à ausência do pai das crianças.

“O pai dos meus filhos não aparece em casa há cinco meses e raramente contribuiu para o sustento da família. O mais doloroso é ver um pai, funcionário público, fugir às suas responsabilidades, deixando-nos numa situação muito difícil”, lamentou.

A ANDA-Bengo trabalha em coordenação com o Instituto Nacional da Criança (INAC) para incentivar as vítimas a formalizarem denúncias. Segundo a associação, muitas mulheres sentem receio de denunciar e acabam por não apresentar queixa contra os responsáveis.

A organização esclareceu ainda à Uyele que não recebe apoio financeiro nem assistência regular das instituições públicas, recorrendo aos poucos recursos disponíveis para prestar apoio a famílias em situação de vulnerabilidade.

No âmbito das actividades do Mês da Criança, a associação prevê realizar, durante o mês de Junho, uma campanha de sensibilização porta a porta para incentivar a denúncia de casos de abandono parental e promover a defesa dos direitos das crianças.

Texto: Sílvia Mário